BNEI AKIVA - SÃO PAULO

Reflexões sobre a Parashát hashavua

Por Rav Moshe Bergman

Parashát Tsav-Shabát hagadol 03/Nissan/5762 – 16/março/02

Haftará: Malaquias 3

Santificação da lua: até 3ª feira à noite-23/3                                                   Não esquecer de vender o chametz!

Jejum dos Primogênitos : 4ª feira-27/3.                Pessach: 4ª feira à noite-27/3 - Não esquecer Eruv Tavshilim!

POR QUE APENAS POR QUE APENAS O SHABAT É GRANDE?

O shabat que antecede Pessach tem um nome especial: O Grande Shabat. Foi escrito um parágrafo especial no Shulchan Aruch (Orach Hayim, parágrafo 430), só para nos ensinar: “O shabat antes de Pessach é chamado de O Grande Shabat”. Por que lhe foi dado este nome e qual é a sua importância?

O argumento mais conhecido figura no Sefer Kol Bó (parágrafo 47): antes do Povo de Israel sair do Egito, Moshé Rabeinu ordenou aos judeus que levassem consigo cordeiros, que depois seriam abatidos e consumidos como sacrifício de Pessach (Êxodo, 12:3). Os judeus comemoraram a última noite antes da saída do Egito comendo o sacrifício da festa. Os cordeiros deveriam ser preparados de antemão, quatro dias antes da noite do Seder, como é dito na Torá (Êxodo, 12:1-3): “E falou o Eterno a Moisés e a Aarão na terra do Egito, dizendo: ... Falai a toda a congregação de Israel, dizendo: no dia dez deste mês, tome para si, cada homem, um cordeiro para cada família, um cordeiro para cada casa”.

Nos dias de hoje, este preceito nos parece algo muito simples: apenas comprar um cordeiro, para depois comê-lo. No entanto, tratava-se de um preceito muito difícil de ser cumprido pelo Povo de Israel, devido à importância que os egípcios atribuíam a este animal. O cordeiro era um ídolo cultuado no Egito, semelhante ao que é feito atualmente com as vacas na Índia. Encontramos provas disso na história de Yossef e seus irmãos. Quando a família de Yaacov desceu ao Egito, não quis morar na capital e misturar-se com a comunidade egípcia. Yaacov temia uma influência materialista local e, D’us o livre, casamentos mistos. Os judeus queriam que o Faraó lhes desse autorização para morar num lugar distante e isolado, numa redondeza que fosse só judaica. Tendo em mente este propósito, Yossef aconselhou seus familiares a dizer ao Faraó que eram pastores, que se ocupavam com rebanhos. Como os cordeiros eram ídolos cultuados, o Faraó certamente não manteria na cidade pessoas que comiam sua carne (Gênesis, 46:34). Lemos também na Torá (Gênesis, 43:32) que os egípcios odiavam fazer suas refeições com os judeus. Onkelos traduz: “Os egípcios não podiam comer pão com os hebreus, porque estes comiam o cordeiro que os egípcios adoravam”.

A introdução de um cordeiro na cidade, com a finalidade de comê-lo, era vista pelos egípcios como uma ofensa a tudo que lhes era sagrado. Pouco antes da quarta praga, a dos animais ferozes, o Faraó propôs a Moshé um acordo: ele daria aos judeus liberdade religiosa, permitindo que fizessem sacrifícios ao Eterno dentro do Egito (Êxodo, 8:21). Moshé compreendeu de imediato que tal proposta visava causar problemas para os judeus e respondeu ao Faraó: “Se sacrificarmos a adoração dos egípcios aos seus olhos, certamente eles nos apedrejarão!”.

Agora podemos entender o quanto era difícil para o Povo de Israel fazer o sacrifício de Pessach. Apanhar o animal em público, abatê-lo e depois comê-lo, era algo que, indubitavelmente, causaria muita fúria e até um pogrom contra os judeus.

“Disse o Povo de Israel: ‘O que faremos? Como faremos o sacrifício de Pessach diante dos egípcios? Se sacrificarmos a adoração dos egípcios aos seus olhos, eles certamente nos apedrejarão!’. Disse-lhes Hakadosh Baruch Hu: Vereis o grande milagre que realizarei”(Kol Bó, parágrafo 47).

O Midrash conta que no ano da saída do Egito, o dia 10 de Nissan caiu num shabat (como agora, em 2002). Naquele shabat, os judeus saíram para apanhar cordeiros para o sacrifício, com muito receio porém plenamente convictos de que Hakadosh Baruch Hu realizaria um milagre. Quando os egípcios viram o que os judeus estavam fazendo, enfureceram-se e quiseram matá-los. Tomaram suas espadas e reuniram todo o povo, para se vingar dos judeus. Mas Hakadosh Baruch Hu realizou grandes milagres, fazendo recair sobre eles doenças e sofrimentos que os impediram de colocar em prática sua trama. É por causa destes milagres que este shabat específico é chamado de “O Grande Shabat”- Shabat Hagadol.

O Beit Yossef (parágrafo 430) fez as seguintes perguntas acerca deste argumento: isso significa que, durante os quatro dias que antecederam Pessach, houve grandes milagres. Em cada um desses dias, os egípcios quiseram matar os judeus. Por que então só o shabat é chamado de “Shabat Hagadol”? Deveriam chamar todos estes dias de “Os Grandes Dias”.

Ouvi uma contestação segundo a qual o grande milagre não estava relacionado com o que fora feito aos egípcios, mas com o fato dos judeus terem tido a coragem de sentir-se livres e não temer os egípcios. Já foi dito que “mais difícil que tirar os judeus da Diáspora é tirar a Diáspora dos judeus”. Vemos que também nos dias do Segundo Templo, assim como atualmente, a maior dificuldade era convencer os judeus a imigrar para Israel. Eles já se haviam acostumado a viver como um povo sem pátria e sem orgulho nacional. Às vezes, considerações materiais são mais importantes para os judeus que a identidade judaica e o cumprimento apropriado das mitzvot. Nestes anos todos em que vivemos na Diáspora, às vezes nos esquecemos que fazer parte do povo de D’us significa também ser um povo com nacionalismo próprio. Não é agradável questionar quantos judeus estariam vivendo atualmente em Israel se o Holocausto europeu não os tivesse forçado a fazê-lo.

Este é o grande milagre do Shabat Hagadol. O fato dos judeus terem deixado de sentir medo dos gentios e de render-se a eles, a crença em Hashem e a transformação num povo soberano e altivo. Um povo que conhece sua identidade nacional, construída a partir de sua lealdade para com D’us e a preservação do Shabat. Antes de sairmos da escravidão egípcia para a liberdade física, devemos abandonar nossa forma de pensar, tão característica da Diáspora. Lembrar que somos um povo livre e independente, que possui uma bandeira e um governo próprios. Desse modo, poderemos celebrar a Festa da Liberdade, sentindo uma liberdade espiritual plena e verdadeira.

Shabat Shalom – Pessach Kasher VeSameach !