(por Rav Menachem Leibtag
– Tradução livre: Daniel Segal Amoasei)
O
que tem de tão horrível no pecado dos “meraglim” (espiões)?
No final, eles foram instruídos a relatarem os fatos, e foi exatamente
isto que fizeram! Além disto, se considerarmos os relatórios
deliberadamente inclinados, por que toda a toda a nação seria
punida por serem convencidos por um pequeno grupo? Finalmente, mesmo que a reação
inicial do povo tenha sido imprópria, imediatamente depois eles se
arrependeram declarando sua disposição de conquistar a terra de
Israel!
Por
que, então, a geração do deserto foi severamente punida?
Por que tiveram que vagar quarenta anos no deserto até perecerem? Esta
semana examinaremos este trágico evento, tentando entendê-lo.
Introdução
Antes
de começarmos, um ponto importante de nomenclatura. Mesmo que este evento
é conhecido como “chet hameraglim” – pecado dos espiões, em
parashá Shelach ele jamais é referido desta forma! Por uma questão
de conveniência, continuaremos a chamá-lo de “chet hameraglim”,
mas mostraremos que a missão envolvia muito mais do que somente espionar
a terra.
Para
averiguarmos mais precisamente qual foi a missão dos espiões, começaremos
discutindo as palavras que a Torá usa para descrevê-la.
Turistas
ou espiões
Na
descrição da missão dos meraglim, a Torá usa o verbo
"latur" (vide Bamidbar 13:2,17,25). Este verbo pode ser traduzido como
excursionar ou explorar. Entretanto, para acharmos uma definição
mais precisa, temos de analisar as características desta missão.
Vamos olhar as instruções que Moshe aos espiões:
"E
enviou-os Moshe para 'espiar' a terra de Canaã e disse-lhes:...e vereis a
TERRA, que TAL É ELA; e o povo que habita
sobre ela, se é FORTE ou FRACO, se é POUCO ou NUMEROSO. E que tal
é a terra que habita, se é BOA ou MÁ; e que tal as cidades
em que habita, se em cidades ABERTAS ou em FORTALEZAS; e que tal a terra, se
RICA ela é, se POBRE; se nala há ÁRVORES..." (Bamidbar
13:17-20).
Claramente,
isto é mais do que uma missão de espionagem. Note que os meraglim
são enviados para recolher dois tipos de informação:
1.
Sobre a
NATUREZA DA TERRA - ou seja, verificar se a terra é boa ou má, o
solo rico ou pobre, as árvores dão frutas ou não e etc.
2.
Sobre a
PROBABILIDADE DA CONQUISTA MILITAR - ou seja, descobrir se o inimigo é
forte ou fraco, se as cidades são fortificadas ou não e etc.
Isto não é trabalho para espiões militares! É uma missão de verificação de fatos. Normalmente, espiões são mandados somente depois que a nação decide entrar na guerra. O comando militar manda um pequeno grupo de espiões para ajudar no plano de COMO atacar o inimigo. A missão dos meraglim é um pouco diferente. Eles estão recolhendo informações para ajudar o povo a decidir SE querem conquistar a terra. Claramente não é uma missão de espiões militares. Seria melhor definida como COMISSÃO NACIONAL DE INVESTIGAÇÃO - encarregada de conduzir o estudo da probabilidade do estabelecimento da terra de Canaã como a nova casa do povo de Israel.
Para
entendermos porque, precisamos lembrar que o povo está a procura de uma
casa , que abrigará uma nação de dois milhões de
indivíduos.
Portanto,
ANTES do povo começar a conquista da terra, precisam verificar dois
pontos importantes, que correspondem a missão dupla descrita acima:
1.
Se a terra
é realmente propícia para eles como pátria; e então
2.
Se são
capazes de conquistá-la.
Baseado nesta introdução, podemos entender melhor o versículo de introdução da parashá:
"E falou o Eterno a Moshe...Envia para ti homens...UM HOMEM POR CADA TRIBO ...todos eles eram homens, LÍDERES dos filhos de Israel" (Bamidbar 13:1-3).
Por causa da natureza da missão, é necessário
mandar um representante sério de cada tribo.
Isto também explica porque no relatório de volta não
somente Moshe foi informando, como também todo o público (vide
Bamidbar 13:26). Se fossem espiões militares, eles deveriam relatar
somente a Moshe (ou seja, o comandante militar), mas definitivamente não
para toda a nação. Portanto, se eles fossem espiões
militares, não teriam razão para publicar os seus nomes, e
certamente mandar líderes
tribais. Justamente o contrário, porque eles tem um compromisso nacional,
que líderes são enviados, e precisamente por isso, eles relatam
também para o povo.
Prova do livro Yoshua (Josué)
Para clarificar a diferença entre espiões e uma comissão
de investigação será útil a comparação
destes meraglim com os meraglim enviados por Yoshua (Haftará desta
semana):
"E Yoshua Bin Nun enviou SECRETAMENTE dois ESPIÕES de Shitim
dizendo: Vão, olhem a terra e a área de Yerichó..."
(Yoshua 2:1).
"...e os dois homens retornaram...e eles vieram a YOSHUA e falaram
para ELE tudo o que aconteceu com eles" (Yoshua 2:24).
Note como os espiões do livro Yoshua são enviados
secretamente (não sabemos os seus nomes) para espionar a cidade e relatar
o ocorrido somente a Yoshua. Claramente é uma missão puramente
militar.
Para clarificarmos este contraste, a tabela a seguir resumirá as
diferenças entre as duas missões:
Meraglim de Moshe |
Meraglim de Yoshua |
|
12
homens |
2
homens |
|
Líderes
tribais |
Sem
nomes |
|
Relatório
público |
Relatório
secreto |
|
A
Torá emprega o verbo "latur" (dois significados) |
Empregado
o verbo "Lareguel" (somente espionar) |
|
Tipo
da terra: Suas frutas, cidades, etc |
Somente
informação militar |
Os meraglim de Yoshua servem como espiões militares mandados por
ele para ajudá-lo no plano de COMO conquistar a terra. Os meraglim de
Moshe servem como uma comissão de investigação, mandada
para ajudar o povo a escolher SE eles podem conquistar a terra.
Um relatório / duas opiniões
Agora que clarificamos e definimos a natureza dupla da missão dos
meraglim de Moshe, estamos prontos para avaliar o relatório deles para
determinarmos o que fizeram de errado.
Quando os meraglim retornam, eles relatam perfeitamente o duplo propósito
da missão:
"e voltaram a Moshe e a Aharon , e A TODA CONGREGAÇÃO...e
mostraram-lhes o fruto da terra...e também dela EMANA LEITE E MEL e este
é o seu fruto. Porém, FORTE é, o povo que habita na terra,
e as cidades são muito FORTIFICADAS...Amalek habita a terra do sul; e o
Hiteu e o Jebuseu, e o Amoreu, habitam no monte..." (Bamidbar 13:26-29).
Baseado no achado dos meraglim, em respeito a natureza da terra, eles
concluem que ela é soberba:
"...e mostraram-lhes o fruto da terra...e também dela emana
leite e mel..." (Bamidbar 13:26-27).
No entanto, no que diz respeito a facilidade da conquista, os meraglim
concluiram que conquistar o povo de Canaã era impossível:
"Porém forte é, o povo que habita a terra, e as
cidades são muito fortificadas...Amalek habita a terra do sul; e o Hiteu
e o Jabuseu, e o Amoreu, habitam o monte..." (Bamidbar 13:28-29).
Esta opinião reflete somente o que pensa a maioria da comissão.
Kalev e Yoshua apresentam uma opinião diferente. Baseado nos mesmos
achados, eles concluem que a conquista da terra é possível:
"herdemo-la porque podemos contra ela" (Bamidbar 13:30).
Até este ponto parece que a comissão é bem objetiva;
eles relatam os fatos que viram. Todos os doze membros concluíram que a
terra é boa, e o inimigo formidável. Contudo, duas opiniões
existem a respeito da conquista da terra: A maioria conclui que é fútil
qualquer tentativa de conquista (vide Bamidbar 13:31), enquato que a opinião
oposta, apresentada por Kalev, argumenta que a conquista é viável
(vide Bamidbar 13:30).
A opinião da maioria parece ser mais lógica e realista. Por
que, então, D'us ficou bravo?
Normalmente se explica que a opinião da maioria dos meraglim, e a
punição, provém da falta de fé em D'us. Se eles
confiassem em D'us, como Kalev e Yoshua, eles teriam chegado a opinião
contrária. Contudo, esta conclusão pode ser um pouco simplista.
Será possível que dez dos doze líderes tribais, depois de
testemunhar os milagres da saída do Egito e da jornada pelo deserto, não
acreditariam em D'us e em sua abilidade de ajudar o povo de Israel?
Sem fé em quem?
Não deve haver a menor dúvida de que os líderes
tribais, e toda a nação, acreditavam em D’us e na possibilidade
da assistência Divina. Infelizmente, eles também estavam cientes da
possibilidade do castigo Divino. Durante a viagem do povo, D’us não
interviu somente para ajudá-los. Ele diversas vezes também
interviu para puní-los. Entretanto, os meraglim também sabiam que
para ser digno da assistência Divina o povo deveria obedecer sempre. Este
aviso já foi enraizado no final de parashá Mishpatim:
“E eis que Eu envio um anjo diante de ti, …para levar-te ao lugar que
aprontei.Guarda-te diante dele, escute sua voz, não te rebeles contra
ele, POIS NÃO PERDOARÁ OS VOSSOS DELITOS, porque o Meu nome está
nele. Pois SE ouvires…e fizeste tudo que falar, serei inimigo de teus inimigos
e adversário de teus adversários” (Shemot 23:20-25).
Este aviso declara claramente que a assistência Divina é
totalmente dependente do comportamento do povo judeu. Se eles não
ouvirem, cairão perante o inimigo.
Poderíamos sugerir que a conclusão dos meraglim é
baseada na avaliação de que o povo não é capaz de
manter o nível espiritual necessário para serem dignos dos
milagres durante a conquista da terra. Realizar a conquista somente é viável
com a assistência Divina, logo concluiram que a conquista seria impossível
pois não mereciam a ajuda. Os meraglim não duvidaram da abilidade
Divina de ajudá-los na batalha, pelo contrário, eles duvidaram da
própria capacidade de serem dignos da assistência.
Então, o que tem de tão terrível? Não
é o trabalho de um líder avaliar todos os fatores relevantes?
Dibah (difamação)– o pecado dos meraglim
Ë precisamente neste tipo de situação onde a liderança
torna-se crítica! O líder ideal obrigaria a nação a
elevar o seu nível espiritual – para se tornarem dignos da ajuda
Divina. Os meraglim tomaram um rumo diferente. Em lugar de reunir a nação
para cumprir o seu destino, os meraglim esconderam sua covardia atrás de
um muro de exageros! Prestemos atenção para a reação
deles quando Kalev opina (em Bamidbar 13:30):
“Mas os homens que subiram com ele (Kalev), disseram: Não
poderemos contra aquele povo, porque ele é mais forte do que nós.
E INFAMARAM A TERRA que tinham espiado, diante dos filhos de Israel, dizendo: A
terra pela qual passamos para espiar, é uma terra que CONSOME OS SEUS
MORADORES; e TODO o povo que vimos nela, são homens de GRANDE
ESTATURA…e nos consideramos a nossos olhos como GAFANHOTOS; e assim éramos,
AOS SEUS OLHOS” (Bamidbar 13:31-33).
Isto não são declarações objetivas de uma
comissão de investigação! Ao contrário, parece uma
apresentação exageradamente histérica feita numa tentativa
desesperada de convencer a opinião pública. A terra não
"consome" os seus habitantes, e os meraglim não são
vistos pelos Cananeus como "gafanhotos"! Em lugar de confessar o
verdadeiro receio e na falta de confiança no povo, eles exageram na
exposição dos fatos. Ao invés de encorajarem o povo para
prepararem-se para a missão, eles preferem usar políticas
populistas e gerar medo no acampamento.
Liderança propícia é exibida por Kalev e Yoshua.
Note a resposta a esses argumentos:
"Se se agradar de nós o Eterno, e nos trouxer a está
terra...tão somente CONTRA O ETERNO NÃO VOS REBELEIS; e não
TEMAIS o povo da terra...E O ETERNO ESTÁ CONOSCO. NÃO OS
TEMAIS" (Bamidbar 14:8-9).
Infelizmente, os meraglim obtém sucesso em convencer o povo de que
a conquista é impossível (vide Bamidbar 14:1-2). Considerando que
a permanência no deserto nào é uma boa solução
a longo praso, o povo conclui que a única opção é o
retorno ao Egito (vide Bamidbar 14:3-5). A tentativa de Kalev e Yoshua de
convencer o povo é inútil (vide Bamidbar 14;6-9). O povo de Israel
prefer retornar ao Egito ao invés de enfrentar o desafio de tornar-se a
nação especial de D'us na terra de Israel.
Baseado na nossa explicação até agora, somente os
meraglim deveriam ser punidos, pois foram eles que fizeram o povo errar. Por que
D'us também puniu a nação?
O pecado final
Poderíamos dizer que a preferência do povo pela opinião
dos meraglim e não a de Kalev, reflete a própria fraqueza
espiritual. Sem dúvida, a inclinação do povo para o relatório
dos meraglim influenciou a sua decisão. Contudo, desde o tempo de êxodo
até a viagem pelo deserto, o povo mostrou uma consistente falta de
idealismo. Se a terra de Israel fosse oferecida a eles "em uma
bandeja", o povo a aceitaria com prazer. Contudo, uma vez que realizar a
conquista da terra prometida requer esforço e dedicação, a
nação declina. A conclusão de D'us é final:
"Até quando me irritará este povo? E até quando
não acreditará em Mim, com todos os sinais que fiz..."
(Bamidbar 14:11-12).
Como no caso do pecado do bezerro, D'us deseja destruir toda a nação,
optando por fazer um novo povo de Moshe. Uma vez mais, Moshe pede a D'us para
invocar Seus treze atributos de misericórdia. Contudo, desta vez,
é impossível reverter o veredito, ele pode ser somente postergado.
Durante o pecado dos meraglim, D'us se convence de que a geração
do deserto nunca seria capaz de enfrentar os desafios de conquistar e
estabelecer uma "nação santa" na terra prometida. Eles
morrerão vagarosamente no deserto, enquanto uma nova geração
crescerá e será educada apropriadamente.
Baseado nesta explicação, podemos entender porque o
arrependimento do povo (em Bamidbar 14:39-45 o povo se arrepende e tenta
conquistar a terra sem autorização Divina e muitos morrem)
é insuficiente. Mesmo que a declaração: "Ei-nos aqui e
subiremos ao lugar que disse o Eterno, PORQUANTO HAVEMOS PECADO" (Bamidbar
14:40) possa refletir uma mudança sincera, já é tarde. Se
este fosse o único pecado do povo de Israel, então provavelmente
seu arrependimento seria suficiente. Contudo, a geração do deserto
possue uma atitude problemática desde o êxodo (vide Shemot 6:9-12).
Mesmo depois de receberem a Torá e construirem o Tabernáculo, suas
numerosas queixas contra Moshe desde o tempo da saída do Monte Sinai são
indescúlpaveis. O pecado dos meraglim não foi um pecado isolado,
foi simplesmente "a última gota".
O povo de Israel ficou mais do que feliz por aceitar o privilégio
de ser o povo escolhido, mas ainda não estavam preparados para receber as
obrigações que isto pede. D'us decidiu que era necessário
educar uma nova geração.
As oportunidades dadas ao povo judeu de voltar para a sua terra não são frequentes. As implicações desta oportunidade vão muito além do simples cumprimento da mitzvá (obrigação) de "yshuv eretz Israel" (assentamento da terra de Israel), já que está relacionada com toda a característica e destino do povo judeu. Quando surge uma oportunidade, fraquezas espirituais não devem se esconder atrás de pessimismos subjetivos. Pelo contrário, a liderança judaica deve recolher forças e taxar a realidade objetiva, enquanto cresce.