B”H

Parashá Behaalotechá

 

(por Rav Menachem Leibtag – Tradução livre: Daniel Segal Amoasei)

 

            Três livros em um? Assim alegam nossos sábios sobre o livro Bamidbar.

            E mais, um desses três livros contém somente DOIS versículos: Bamidbar 10:35-36 (famoso “Vayí binsoa Haaron…” que recitamos na reza ao retirar do armário os rolos da Torá). Será possível que  dois meros versículos possam ser considerados um livro inteiro?

            Na primira parte do nosso estudo, responderemos esta questão fazendo uma análise geral do livro Bamidbar. Na segunda parte, voltaremos ao versículo de abertura da parashá para discutir a famosa questão levantada por Rashi (comentarista da Torá) sobre “chalsha daato shel Ahaaron…” (explicaremos o que é na segunda parte).

            Primeira parte – Introdução

            Qualquer um familiar com a Torá, sabe que raramente encontramos símbolos de pontuação nela. Contudo, dois versículos do livro Bamidbar são uma exceção, a Torá os envolve com dois “nunim” um normal e um ao contrário (formando algo como um parenteses - [ ] ), causando com que esses versículos se sobreponham.

            Somente por esta razão técnica podemos supor que há algo de especial nestes versículos. Mas, também por uma perspectiva temática, estes dois versículos são especiais pela posição central que ocupam no livro Bamidbar.

            Relembre-se da nossa explicação, na semana passada, de como a narrativa do livro Bamidbar descreve a jornada do povo de Israel do Monte Sinai até a terra de Canaã. Esta narrativa está dividida nitidamente em duas partes:

1.         Capítulos 1-10 – Preparação do povo para a jornada

2.         Capítulos 11-36 – Jornada (e os pecados).

Portanto, os dois versículos “Vayíbinsoa Haron…” (Bamidbar 10:35-36), os últimos dois versículos do capítulo 10, funcionam como uma divisão entre estas duas seções. Tentaremos explicar por que estes dois versículos são delimitados (por pontuação) e por que os sábios consideraram eles como um livro inteiro. Para fazê-lo, primeiro precisamos considerar o que deveria acontecer no livro Bamidbar, em contraste com o que aconteceu.

Esperanças elevadas

Já no livro Bereshit, D’us havia estabelecido Seu plano para o povo de Israel  tornar-se Sua nação especial na terra prometida. Para eles poderem cumprir esta meta, D’us redimiu eles do Egito e deu-lhes a Torá. Teoricamente (ao menos) eles estavam agora prontos para herdar a terra.

Como explicamos na semana passada, o livro Bamidbar começa com a descrição de como o povo viajará com o Tabernáculo ao centro. Isto é significante pois mostra que o retorno da Presença Divina para o Tabernáculo é resultado do perdão pelo pecado do bezerro. Agora, D’us espera que o povo esteja finalmente pronto para a jornada do Sinai até a terra prometida.

Portanto, é compreensível que os três primeiros capítulos do livro Bamidbar serem  considerados um livro (LIVRO 1) pois discutem um tópico completo – a preparação técnica e espiritual para esta jornada. Por exemplo:

       ¨         O Tabernáculo é posto no centro do acampamento (capítulos 1-5)

       ¨         Os líderes participam da sua inauguração (capítulo 7)

       ¨         Os leviim são apontados como líderes espirituais

       ¨         Toda a nação se reúne para oferecer o korban (sacrifício) de Pessach (capítulo 9) e etc.

De uma maneira similar, podemos considerar os capítulos de 11 a 26 como um livro (LIVRO3) pois explicam porque o povo não entrou na terra. Mas por que os dois versículos do meio, que formam somente uma separação, podem ser considerados um livro (LIVRO2)?

Poderíamos sugerir que o LIVRO 2 é mais do que uma separação, eles descrevem  (10:35-36) a maneira na qual o povo poderia ter viajado na sua jornada para herdar a terra. Apesar de breve, o LIVRO 2 representa a maneira ideal que o povo viajaria, ou seja, o que deveria ter acontecido.

Através da intencional delimitação destes dois versículos com os dois “nunim”, a Torá frisa a tragédia do livro Bamidbar. Desta maneira, o LIVRO 1 – preparação do povo para a jornada – é seguido por duas versões da jornada:

LIVRO 2 – a jornada ideal (dois versículos)

LIVRO 3 – a atual jornada (o resto do livro).

Para frisar a tragédia do LIVRO 3, a Torá primeiramente apresenta de relance o que poderia ter sido o LIVRO 2 – a maneira gloriosa em que o povo poderia ter viajado, se não tivessem pecado.

O que saiu de errado?

Então, o que saiu de errado? O que guiou os vários pecados descritos em Bamidbar?

Nossos sábios encontram uma alusão no versículo (que está escrito imediatamente antes de “vayí binsoa Haron…”) que descreve a saída do povo do Monte Sinai:

“E partiram DO Monte do Eterno…” (Bamidbar 10:33-34).

O Midrash nos ensina sobre este versículo: “como uma criança fugindo da escola”

O Midrash compara a estadia do povo no Sinai como um ano escolar. Mesmo que já estudaram as leis Divinas, parece que elas não foram absorvidas. Eles queriam mais sair do Monte do que cumprir as leis Divinas na terra de Israel. Mesmo que estivessem tecnicamente preparados para a jornada, eles definitivamente não estavam espiritualmente preparados.

Mas, quem é o culpado? Certamente o primeiro e principal culpado é o próprio povo. Mas, se seguirmos o exemplo do Midrash (Monte Sinai ser uma escola), devemos também considerar a possibilidade de que o professor talvez tenha também responsabilidade. Iremos agora mostrar como o livro Bamidbar menciona esta possibilidade.

Será que Moshe foi o bastante?

            Começando pelo capítulo 4, em quase todos os relatos dos pecados do povo de Israel no livro Bamidbar é colocado em dúvida a liderança de Moshe. Não somente o povo constantemente queixa-se dele no capítulo 11, como o seu próprio irmão e irmã o criticam no capítulo 12! Então, nos capítulos 13–14, os espiões enviados a terra de Israel chamam a nação para uma rebelião contra ele. Mais tarde, Korach (capítulo 16) lidera uma outra rebelião. O que saiu de errado?

            Poderíamos sugerir que a raiz do problema começou no caso dos “mitavim” (quando o povo reclamou que queriam carne – Bamidbar 11:4-14).

            Primeiramente, notemos a petição de Moshe a D’us em resposta a reclamação do povo sobre o gosto rançoso do Man (comida dada por D’us ao povo, que caia do céu):

            “E disse Moshe ao Eterno: Por que fizesste mal ao teu servo? E por que não achei graça aos teus olhos visto que puseste a CARGA de todo este povo sobre mim?…Não posso, eu só, suportar a todo este povo porque pesado demais é para mim. E se assim Tu me fazes, MATA-ME logo…” (Bamidbar 11:11-15).

            Em contraste com o Moshe que estamos acostumados a encontrar no livro Shemot – que constantemente defendeu o povo quando pecou, agora no livro Bamidbar a atitude de Moshe parece ser o oposto – ele preferia morrer a continuar a ser o líder do povo!

            Note o paralelo textual óbvio que surge deste contraste:

Bamidbar

Shemot

“Por que fizeste mal ao teu servo?” (11:11)

“Senhor, por que fizeste mal a este povo?” (5:22)

“E por que não achei graça aos teus olhos…?” (11:11)

“se ahei graça aos teus olhos…e considera que é Teu povo esta nação.” (33:13)

“E se assim Tu me fases, mata-me” (11:15)

“E agora, se perdoas seu pecado está bem… e se não, risca-me, rogo, do teu livro” (32:30-32)

            É ironico que depois do incidente do pecado do bezerro Moshe está pronto para morrer para salvar a nação, enquanto que agora prefere morrer a liderar a nação! No livro Shemot, Moshe sempre estava pronto a se sacrificar em nome do povo, enquanto que agora ele parece ter desistido.

            Será que Moshe reagiu de maneira inapropriada? É possível que o maior profeta de todos os tempos, que recebeu a Torá e passou-a ao povo, simplesmente desistiu?!  Será Moshe, quem tirou o povo do Egito e guiou-os até o Monte Sinai, agora incapaz de liderá-los no último passo da grande jornada até Israel? A resposta SIM pode ser blasfêmia, e a NÃO parece inocênte.

Santo demais para liderar

            Poderíamos dizer que o contraste entre a reação de Moshe perante o pecado do bezerro e sua reação frente os "mitavim" provém do motivo por trás de cada pecado.

            A despeito da gravidade do pecado do bezerro, ele só surgiu como resultado de um desejo desorientado de preencher o vacúo espiritual causado pela ausência de Moshe. Similarmente, o pecado dos "mitavim" parece ser totalmente físico - um incontrolável desejo por comida.

            O pecado do bezerro representou um desafio educacional que Moshe estava disposto a aceitar, ou seja, pegar este desejo desorientado e posicioná-lo na direção correta. Contudo, depois deste pecado mundano dos "mitavim" Moshe simplesmente desistiu. Ele era incapaz de entender como uma nação, depois de ficar um ano inteiro no Monte Sinai, tornar-se tão preocupado com desejos mundanos. Moshe simplesmente não tem os instrumentos educacionais para lidar com um nível tão baixo de comportamento.

            A reação imediata de D'us a petição de Moshe reflete este problema na liderança de Moshe. D'us acha necessário pegar algo da Ruach (espiritualidade com a qual Moshe falava com D'us) e transferí-la para os setenta anciões (vide Bamidbar 11:16-17). D'us faz agora com que Moshe reparta suas responsabilidades como líder com os anciões que possibilitam uma solução mais real para este tipo de problema.

            Acrescentaremos um outro ponto. No livro Bamidbar, Moshe pode ser considerado "santo" demais para liderar o povo. Depois de ficar seis meses em cima do Monte Sinai, o nível espiritual de Moshe está muito maior que o da nação. Não é que Moshe seja incapaz de liderar, e sim o povo está num nível muito baixo para serem beneficiados pela sua liderança. Mais simples, o líder e o liderado não se combinam.

            Parte dois - "se deprimiu Aharon"

            O primeiro Rashi desta semana cita o famoso Midrash que explica a proximidade entre o primeiro tópico de parashá Behaalotechá - o acendimento da Menoráh (candelabro do Tabernáculo) por Aharon (Bamidbar 8:1-5), e o último tópico de parashá Nassó - os doze dias da cerimônia de inauguração do altar:

            "Por que o trecho da Menoráh está próximo ao trecho da inauguração do altar    pelos Nissim (princípes tribais)? Quando Aharon viu os korbanot (sacrifícios) inaugurais oferecidos pelos Nissim, se deprimiu Aharon, pois nem ele, nem sua tribo (Levi) participaram da cerimônia. D'us consolou Aharon dizendo: Não se preocupe, sua porção é maior que a deles, você será responsável por acender a Menoráh manhã e tarde".

            Aharon foi realmente excluído?

            Ramban (comentarista da Torá) imediatamente questiona a suposição deste Midrash. Será que realmente Aharon ficou deprimido porque foi excluído? No final, cada Nassí teve atenção por somente  um dia enquanto Aharon foi o centro das atenções durante doze dias. Ele também ofereceu korbanot  durante os doze dias. Além disto, durante a cerimônia de  consagração do Tabernáculo (Vayikrah 8:1-36) ele e seus filhos foram privilegiados com sete dias de atenção exclusiva. Por que razão poderia Aharon sentir-se  excluído?

            Em seu comentário, Ramban é incapaz de dar uma resposta satisfatória.

            Coalisões políticas

            O início do Midrash requer uma explicação: "Se deprimiu Aharon" - Considerando que Aharon é ainda o centro das atenções e ficou bastante ocupado durante todos os dias da cerimônia, por que se deprimiu?

            Para entendermos a reação de Aharon precisamos considerar a realidade política desta situação. O povo de Israel acabou de deixar o  Monte Sinai e começar sua jornada de conquista e herança da terra. Mesmo que Aharon é ainda uma figura chave na estadia do povo no deserto, ele está apreensivo sobre o que ocorrerá quando deixarem Sinai. Mais especificamente, o foco da atenção  nacional se transferirá do Monte Sinai e do Tabernáculo para o êxito militar e empreendimentos politicos.

            Assim que o povo começar a conquista, vão ser especificamente estes doze Nissim que vão ocupar as maiores posições de liderança nacional. Eles estabelecerão uma política econômica; farão festividades para diplomatas estrangeiros; vão liderar à nação na guerra e etc. Na linguagem moderna, eles serão Ministros da Defesa, e do Tesouro, Secretários do Estado.

            Logo, é um tanto compreencível porque Aharon se deprimiu. Quando ele viu a atenção que os Nissim receberam, e ele realizando sua simples função sem chance de emergência na liderança nacional. Que ministério ele poderia receber? Em seus olhos ele era um mero "shamash" (servente) cuidanto do Tabernáculo através de um trabalho muito técnico.Terá ele alguma influência no nível nacional? No máximo poderá ser apontado como Ministro da   Religião. Durante pouco tempo, Aharon sentiu, estará for a do foco nacional.

            Um posto importante 

            Acabamos de sugerir uma razão para a depressão de Aharon. Qual é o significado da consolação de D’us – que ele acenderá a Menoráh?

            Embora o Midrash nos ensine bem as muitas responsabilidades de Aharon, foi escolhido justamente o acendimento da Menoráh para simbolizar um outro aspecto de seu dever naional: Ensinamento das leis Divinas para o povo. Este propósito duplo é mencionado na benção dada por Moshe em Vezot Haberachá:

            “São merecedores os Leviim, de ensinar os teus juizos a Yaakov, e tua lei a Israel; porão incenso de especiarias diante de Ti, e korbanot sobre o Teu altar” (Devarim 33:10).

            Na realidade, ensinar tornou-se a principal missão dos kohanim e Leviim. Uma vez que estão divididos em 24 grupos semanais, a proporção em que um kohen ou levi trabalha no Templo é somente duas semanas por ano. Portanto, a maior parte de seu tempo passam ensinando e julgando o povo (vide Devarim 17:8-10), por isso, suas cidades estão espalhadas entre as tribos de Israel (vide Bamidbar 35:1-8 e Yoshua 21:1-40).

            Portanto, a Menoráh pode simbolizar esta missão dos kohanim – ensinar. Exatamente como a Menoráh espalha luz por todas as direções, assim também os kohanim espalham Torá para toda a nação. Isto explica porque Aharon se consolou com o recebimento da Menoráh ("Não há luz senão Torá").

            Continuando nosso exemplo no meio político, Aharon e sua tribo são consolados com o recebimento da mitzvá do acendimento da Menoráh. Está mitzvá lembra-os que estão destinados a controlar o Ministério da Educação e da Justiça (e também o da Religião) – uma posição não menos importante do que qualquer outra.  

                  

  

B”H

Parashá Behaalotechá

 

(por Rav Menachem Leibtag – Tradução livre: Daniel Segal Amoasei)

 

            Três livros em um? Assim alegam nossos sábios sobre o livro Bamidbar.

            E mais, um desses três livros contém somente DOIS versículos: Bamidbar 10:35-36 (famoso “Vayí binsoa Haaron…” que recitamos na reza ao retirar do armário os rolos da Torá). Será possível que  dois meros versículos possam ser considerados um livro inteiro?

            Na primira parte do nosso estudo, responderemos esta questão fazendo uma análise geral do livro Bamidbar. Na segunda parte, voltaremos ao versículo de abertura da parashá para discutir a famosa questão levantada por Rashi (comentarista da Torá) sobre “chalsha daato shel Ahaaron…” (explicaremos o que é na segunda parte).

            Primeira parte – Introdução

            Qualquer um familiar com a Torá, sabe que raramente encontramos símbolos de pontuação nela. Contudo, dois versículos do livro Bamidbar são uma exceção, a Torá os envolve com dois “nunim” um normal e um ao contrário (formando algo como um parenteses - [ ] ), causando com que esses versículos se sobreponham.

            Somente por esta razão técnica podemos supor que há algo de especial nestes versículos. Mas, também por uma perspectiva temática, estes dois versículos são especiais pela posição central que ocupam no livro Bamidbar.

            Relembre-se da nossa explicação, na semana passada, de como a narrativa do livro Bamidbar descreve a jornada do povo de Israel do Monte Sinai até a terra de Canaã. Esta narrativa está dividida nitidamente em duas partes:

1.         Capítulos 1-10 – Preparação do povo para a jornada

2.         Capítulos 11-36 – Jornada (e os pecados).

Portanto, os dois versículos “Vayíbinsoa Haron…” (Bamidbar 10:35-36), os últimos dois versículos do capítulo 10, funcionam como uma divisão entre estas duas seções. Tentaremos explicar por que estes dois versículos são delimitados (por pontuação) e por que os sábios consideraram eles como um livro inteiro. Para fazê-lo, primeiro precisamos considerar o que deveria acontecer no livro Bamidbar, em contraste com o que aconteceu.

Esperanças elevadas

Já no livro Bereshit, D’us havia estabelecido Seu plano para o povo de Israel  tornar-se Sua nação especial na terra prometida. Para eles poderem cumprir esta meta, D’us redimiu eles do Egito e deu-lhes a Torá. Teoricamente (ao menos) eles estavam agora prontos para herdar a terra.

Como explicamos na semana passada, o livro Bamidbar começa com a descrição de como o povo viajará com o Tabernáculo ao centro. Isto é significante pois mostra que o retorno da Presença Divina para o Tabernáculo é resultado do perdão pelo pecado do bezerro. Agora, D’us espera que o povo esteja finalmente pronto para a jornada do Sinai até a terra prometida.

Portanto, é compreensível que os três primeiros capítulos do livro Bamidbar serem  considerados um livro (LIVRO 1) pois discutem um tópico completo – a preparação técnica e espiritual para esta jornada. Por exemplo:

       ¨         O Tabernáculo é posto no centro do acampamento (capítulos 1-5)

       ¨         Os líderes participam da sua inauguração (capítulo 7)

       ¨         Os leviim são apontados como líderes espirituais

       ¨         Toda a nação se reúne para oferecer o korban (sacrifício) de Pessach (capítulo 9) e etc.

De uma maneira similar, podemos considerar os capítulos de 11 a 26 como um livro (LIVRO3) pois explicam porque o povo não entrou na terra. Mas por que os dois versículos do meio, que formam somente uma separação, podem ser considerados um livro (LIVRO2)?

Poderíamos sugerir que o LIVRO 2 é mais do que uma separação, eles descrevem  (10:35-36) a maneira na qual o povo poderia ter viajado na sua jornada para herdar a terra. Apesar de breve, o LIVRO 2 representa a maneira ideal que o povo viajaria, ou seja, o que deveria ter acontecido.

Através da intencional delimitação destes dois versículos com os dois “nunim”, a Torá frisa a tragédia do livro Bamidbar. Desta maneira, o LIVRO 1 – preparação do povo para a jornada – é seguido por duas versões da jornada:

LIVRO 2 – a jornada ideal (dois versículos)

LIVRO 3 – a atual jornada (o resto do livro).

Para frisar a tragédia do LIVRO 3, a Torá primeiramente apresenta de relance o que poderia ter sido o LIVRO 2 – a maneira gloriosa em que o povo poderia ter viajado, se não tivessem pecado.

O que saiu de errado?

Então, o que saiu de errado? O que guiou os vários pecados descritos em Bamidbar?

Nossos sábios encontram uma alusão no versículo (que está escrito imediatamente antes de “vayí binsoa Haron…”) que descreve a saída do povo do Monte Sinai:

“E partiram DO Monte do Eterno…” (Bamidbar 10:33-34).

O Midrash nos ensina sobre este versículo: “como uma criança fugindo da escola”

O Midrash compara a estadia do povo no Sinai como um ano escolar. Mesmo que já estudaram as leis Divinas, parece que elas não foram absorvidas. Eles queriam mais sair do Monte do que cumprir as leis Divinas na terra de Israel. Mesmo que estivessem tecnicamente preparados para a jornada, eles definitivamente não estavam espiritualmente preparados.

Mas, quem é o culpado? Certamente o primeiro e principal culpado é o próprio povo. Mas, se seguirmos o exemplo do Midrash (Monte Sinai ser uma escola), devemos também considerar a possibilidade de que o professor talvez tenha também responsabilidade. Iremos agora mostrar como o livro Bamidbar menciona esta possibilidade.

Será que Moshe foi o bastante?

            Começando pelo capítulo 4, em quase todos os relatos dos pecados do povo de Israel no livro Bamidbar é colocado em dúvida a liderança de Moshe. Não somente o povo constantemente queixa-se dele no capítulo 11, como o seu próprio irmão e irmã o criticam no capítulo 12! Então, nos capítulos 13–14, os espiões enviados a terra de Israel chamam a nação para uma rebelião contra ele. Mais tarde, Korach (capítulo 16) lidera uma outra rebelião. O que saiu de errado?

            Poderíamos sugerir que a raiz do problema começou no caso dos “mitavim” (quando o povo reclamou que queriam carne – Bamidbar 11:4-14).

            Primeiramente, notemos a petição de Moshe a D’us em resposta a reclamação do povo sobre o gosto rançoso do Man (comida dada por D’us ao povo, que caia do céu):

            “E disse Moshe ao Eterno: Por que fizesste mal ao teu servo? E por que não achei graça aos teus olhos visto que puseste a CARGA de todo este povo sobre mim?…Não posso, eu só, suportar a todo este povo porque pesado demais é para mim. E se assim Tu me fazes, MATA-ME logo…” (Bamidbar 11:11-15).

            Em contraste com o Moshe que estamos acostumados a encontrar no livro Shemot – que constantemente defendeu o povo quando pecou, agora no livro Bamidbar a atitude de Moshe parece ser o oposto – ele preferia morrer a continuar a ser o líder do povo!

            Note o paralelo textual óbvio que surge deste contraste:

Bamidbar

Shemot

“Por que fizeste mal ao teu servo?” (11:11)

“Senhor, por que fizeste mal a este povo?” (5:22)

“E por que não achei graça aos teus olhos…?” (11:11)

“se ahei graça aos teus olhos…e considera que é Teu povo esta nação.” (33:13)

“E se assim Tu me fases, mata-me” (11:15)

“E agora, se perdoas seu pecado está bem… e se não, risca-me, rogo, do teu livro” (32:30-32)

            É ironico que depois do incidente do pecado do bezerro Moshe está pronto para morrer para salvar a nação, enquanto que agora prefere morrer a liderar a nação! No livro Shemot, Moshe sempre estava pronto a se sacrificar em nome do povo, enquanto que agora ele parece ter desistido.

            Será que Moshe reagiu de maneira inapropriada? É possível que o maior profeta de todos os tempos, que recebeu a Torá e passou-a ao povo, simplesmente desistiu?!  Será Moshe, quem tirou o povo do Egito e guiou-os até o Monte Sinai, agora incapaz de liderá-los no último passo da grande jornada até Israel? A resposta SIM pode ser blasfêmia, e a NÃO parece inocênte.

Santo demais para liderar

            Poderíamos dizer que o contraste entre a reação de Moshe perante o pecado do bezerro e sua reação frente os "mitavim" provém do motivo por trás de cada pecado.

            A despeito da gravidade do pecado do bezerro, ele só surgiu como resultado de um desejo desorientado de preencher o vacúo espiritual causado pela ausência de Moshe. Similarmente, o pecado dos "mitavim" parece ser totalmente físico - um incontrolável desejo por comida.

            O pecado do bezerro representou um desafio educacional que Moshe estava disposto a aceitar, ou seja, pegar este desejo desorientado e posicioná-lo na direção correta. Contudo, depois deste pecado mundano dos "mitavim" Moshe simplesmente desistiu. Ele era incapaz de entender como uma nação, depois de ficar um ano inteiro no Monte Sinai, tornar-se tão preocupado com desejos mundanos. Moshe simplesmente não tem os instrumentos educacionais para lidar com um nível tão baixo de comportamento.

            A reação imediata de D'us a petição de Moshe reflete este problema na liderança de Moshe. D'us acha necessário pegar algo da Ruach (espiritualidade com a qual Moshe falava com D'us) e transferí-la para os setenta anciões (vide Bamidbar 11:16-17). D'us faz agora com que Moshe reparta suas responsabilidades como líder com os anciões que possibilitam uma solução mais real para este tipo de problema.

            Acrescentaremos um outro ponto. No livro Bamidbar, Moshe pode ser considerado "santo" demais para liderar o povo. Depois de ficar seis meses em cima do Monte Sinai, o nível espiritual de Moshe está muito maior que o da nação. Não é que Moshe seja incapaz de liderar, e sim o povo está num nível muito baixo para serem beneficiados pela sua liderança. Mais simples, o líder e o liderado não se combinam.

            Parte dois - "se deprimiu Aharon"

            O primeiro Rashi desta semana cita o famoso Midrash que explica a proximidade entre o primeiro tópico de parashá Behaalotechá - o acendimento da Menoráh (candelabro do Tabernáculo) por Aharon (Bamidbar 8:1-5), e o último tópico de parashá Nassó - os doze dias da cerimônia de inauguração do altar:

            "Por que o trecho da Menoráh está próximo ao trecho da inauguração do altar    pelos Nissim (princípes tribais)? Quando Aharon viu os korbanot (sacrifícios) inaugurais oferecidos pelos Nissim, se deprimiu Aharon, pois nem ele, nem sua tribo (Levi) participaram da cerimônia. D'us consolou Aharon dizendo: Não se preocupe, sua porção é maior que a deles, você será responsável por acender a Menoráh manhã e tarde".

            Aharon foi realmente excluído?

            Ramban (comentarista da Torá) imediatamente questiona a suposição deste Midrash. Será que realmente Aharon ficou deprimido porque foi excluído? No final, cada Nassí teve atenção por somente  um dia enquanto Aharon foi o centro das atenções durante doze dias. Ele também ofereceu korbanot  durante os doze dias. Além disto, durante a cerimônia de  consagração do Tabernáculo (Vayikrah 8:1-36) ele e seus filhos foram privilegiados com sete dias de atenção exclusiva. Por que razão poderia Aharon sentir-se  excluído?

            Em seu comentário, Ramban é incapaz de dar uma resposta satisfatória.

            Coalisões políticas

            O início do Midrash requer uma explicação: "Se deprimiu Aharon" - Considerando que Aharon é ainda o centro das atenções e ficou bastante ocupado durante todos os dias da cerimônia, por que se deprimiu?

            Para entendermos a reação de Aharon precisamos considerar a realidade política desta situação. O povo de Israel acabou de deixar o  Monte Sinai e começar sua jornada de conquista e herança da terra. Mesmo que Aharon é ainda uma figura chave na estadia do povo no deserto, ele está apreensivo sobre o que ocorrerá quando deixarem Sinai. Mais especificamente, o foco da atenção  nacional se transferirá do Monte Sinai e do Tabernáculo para o êxito militar e empreendimentos politicos.

            Assim que o povo começar a conquista, vão ser especificamente estes doze Nissim que vão ocupar as maiores posições de liderança nacional. Eles estabelecerão uma política econômica; farão festividades para diplomatas estrangeiros; vão liderar à nação na guerra e etc. Na linguagem moderna, eles serão Ministros da Defesa, e do Tesouro, Secretários do Estado.

            Logo, é um tanto compreencível porque Aharon se deprimiu. Quando ele viu a atenção que os Nissim receberam, e ele realizando sua simples função sem chance de emergência na liderança nacional. Que ministério ele poderia receber? Em seus olhos ele era um mero "shamash" (servente) cuidanto do Tabernáculo através de um trabalho muito técnico.Terá ele alguma influência no nível nacional? No máximo poderá ser apontado como Ministro da   Religião. Durante pouco tempo, Aharon sentiu, estará for a do foco nacional.

            Um posto importante 

            Acabamos de sugerir uma razão para a depressão de Aharon. Qual é o significado da consolação de D’us – que ele acenderá a Menoráh?

            Embora o Midrash nos ensine bem as muitas responsabilidades de Aharon, foi escolhido justamente o acendimento da Menoráh para simbolizar um outro aspecto de seu dever naional: Ensinamento das leis Divinas para o povo. Este propósito duplo é mencionado na benção dada por Moshe em Vezot Haberachá:

            “São merecedores os Leviim, de ensinar os teus juizos a Yaakov, e tua lei a Israel; porão incenso de especiarias diante de Ti, e korbanot sobre o Teu altar” (Devarim 33:10).

            Na realidade, ensinar tornou-se a principal missão dos kohanim e Leviim. Uma vez que estão divididos em 24 grupos semanais, a proporção em que um kohen ou levi trabalha no Templo é somente duas semanas por ano. Portanto, a maior parte de seu tempo passam ensinando e julgando o povo (vide Devarim 17:8-10), por isso, suas cidades estão espalhadas entre as tribos de Israel (vide Bamidbar 35:1-8 e Yoshua 21:1-40).

            Portanto, a Menoráh pode simbolizar esta missão dos kohanim – ensinar. Exatamente como a Menoráh espalha luz por todas as direções, assim também os kohanim espalham Torá para toda a nação. Isto explica porque Aharon se consolou com o recebimento da Menoráh ("Não há luz senão Torá").

            Continuando nosso exemplo no meio político, Aharon e sua tribo são consolados com o recebimento da mitzvá do acendimento da Menoráh. Está mitzvá lembra-os que estão destinados a controlar o Ministério da Educação e da Justiça (e também o da Religião) – uma posição não menos importante do que qualquer outra.